domingo, 15 de dezembro de 2019

Fatias da China

O Confeiteiro Prático Português, de Jeronyma Catharina, Bertrand: 1908, p. 123

Fatias da China

Batem-se 16 gemas de ovos, em estando bem batidas deitam-se numa caixa de lata nova untada com manteiga de porco, e tapa-se de forma que não entre água dentro; enche-se um tacho com água a ferver, pondo-se-lhe 3 pedrinhas ao centro coloca-se a lata em cima de forma que não assente no fundo do tacho, parecendo que tem fervido o tempo preciso para estar cozido, em seguida experimenta-se com um palito, e ficando bem enxuto torna-se o tacho do lume e deixa-me esfriar para se deitar o bolo numa travessa, em seguida corta-se às fatias delgadinhas e deita-se-lhe açúcar em ponto de pastinha por cima; depois, virando-se de um e outro lado, torna-se uma pequena porção de açúcar, queima-se e enfeita-se com ele as as fatias.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Livro: Sacavém, a outra loiça


A loiça que vestiu durante mais de um século os comeres e os beberes das mesas portuguesas tem agora a sua história firmada. Um bela obra sobre a grande Fábrica de Loiça de Sacavém foi recentemente editada pela Câmara Municipal de Loures, Clive e Emma Gilbert e Associação dos Amigos da Loiça de Sacavém.
Não percam.
À venda no Museu da Fábrica de Loiça de Sacavém, em Sacavém, por €25.

Confira aqui o índice da obra:

Licor de Café, Licor de Tangerina e Vinho de Laranja


Licor de Café

Ingredientes: cem gramas de café moído, cem gramas de aguardente, cinquenta gramas de açúcar e dois litros de água.
Prepara-se uma infusão com o café moído, juntando-se-lhe a quantidade de água suficiente até se conseguir dois litros. Seguidamente adiciona-se o açúcar e a aguardente.
Após vinte e quatro horas de repouso, esta bebida doce e tónica pode servir-se.

Licor de Tangerina

Ingredientes: quinhentos gramas de açúcar pilé, cem gramas de casca de tangerinas, um litro de aguardente e uma chávena das de chá de água.
Cortam-se tiras de casca de tangerinas maduras (só a parte amarela), o mais finamente possível. Deitam-se as tiras dentro de um frasco contendo a aguardente, rolhando-se este bem durante trinta dias. Então dissolve-se o açúcar em água levando-se ao lume e deixando-se ferver até formar xarope. Retira-se do fogo. Ainda tépido junta-se o xarope à aguardente com as cascas. Agita-se. Deixa-se em repouso pelo espaço de vinte e quatro horas. Filtra-se e engarrafa-se.

Vinho de Laranjas

Tomam-se laranjas bem maduras; cortam-se aos pedaços e espremem-se sobre um coador que não deixe passar pevides ou películas. 
Ao líquido obtido junta-se açúcar branco na proporção de um quilo para cada cinco litros e um litro e meio de água. Lança-se então a mistura em garrafas que se rolham. Este vinho de laranjas serve-se depois de fermentado.

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Tarte de Queijo [Gruyère]


Tarte de Queijo [Gruyère]

250 de farinha, 1 ovo, 1 pouco de sal, 3 colheres (de sopa) de natas, 150 de margarina. Faz-se uma massa rapidamente com todos estes ingredientes (a margarina é derretida mas não muito quente) e deixa-se repousar 1 hora em lugar fresco.

Recheio: 100 gr. de gruyère em fatias finas repartem-se por cima da massa já na forma. Cobre-se com o seguinte creme: 3 colheres de sopa de farinha, 6 decilitros de leite, 3 ovos, 1 cebola picada e sal. Leva-se ao forno a cozer quase completamente.
Retira-se do forno, coloca-se 8 fatias de queijo como guarnição e leva-se novamente ao forno até as fatias começarem a derreter.

Creme Frito

Cozinha de Lisboa e seu Termo, de Alfredo Saramago. Assírio & Alvim, Lisboa, 2003, p. 298

Creme Frito

Num tacho ponha cem gramas de farinha, cinco ovos inteiros e duas gemas. Junte meio litro de leite e deixe ferver cinco minutos. Depois de pronto deite num tabuleiro de folha e deixe esfriar. Corte em fatias, passe por pão ralado e frite em manteiga.

Benard: um século e meio a adoçar Lisboa; Pastelaria Suiça: Lisboa, 1922-2018



João Bernardo Galvão-Telles conseguiu, num espaço muito curto de meses, apresentar duas obras de enorme mérito sobre dois espaços emblemáticos de sociabilidades de Lisboa: a Pastelaria Benard e a Pastelaria Suiça. Uma em funcionamento, a outra recentemente encerrada. Dois paradigmas turísticos ou a forma como uma, a Benard, lutou e manteve a qualidade, o serviço, a atenção ao cliente - e, por isso, sobrevive - e a outra, a Pastelaria Suiça, desleixou-se, descaracterizou-se, piorou o serviço e a qualidade dos produtos - e, por isso mas não só - fechou e desapareceu.

Se estes dois livros, incríveis no gosto, na atenção aos pormenores, nas imagens seleccionadas, nos textos que nos dão a história destes dois marcos da cidade de Lisboa devem, também, ajudar a que se reflicta - e é urgente fazê-lo - sobre que estabelecimentos comerciais queremos em Lisboa, como se devem comportar, que turismo se pretende alcançar e manter. Porque é mais do que óbvio que estas duas casas tomaram rumos diferentes e, por isso, destinos diferentes.

Só faltou mesmo uma ou outra receita de cada uma das casas para adoçar ainda mais a leitura... 
[aquele Bolo de Chocolate que eu comia na Pastelaria Suiça nos idos anos 80/90!!!!]

Com uma edição de mil exemplares, os dois volumes podem ser adquiridos na Livraria Ferin, na Rua Nova do Almada ou, no caso que lhe diz respeito, na Pastelaria Benard.

No dia 04 de Dezembro, na livraria Bertrand, do Chiado, irá decorrer uma sensação de lançamento do livro "Benard: Um século e meio a adoçar Lisboa", pelas18.30h. Seguramente, a não perder!

De referir que ambas as edições são da LMT [Abreu Loreiro, Correia de Matos, Galvão Teles]: Consultores em História e Património.

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Sopa de Cebola


Sopa de Cebola

5 cebolas grandes
3 batatas médias
2 colheres de sopa de margarina
1 colher de sopa de farinha
2,5 dl. de leite
Sal, pimenta, noz moscada, salsa picada

Cortam-se as batatas em cubos e as cebolas em rodelas e levam-se a cozer em pouca água.
Entretanto, à parte, derrete-se 1 colher de sopa de margarina, junta-se a farinha que se deixa ganhar cor, mexendo com uma colher de pau. Depois, mexendo sempre, adiciona-se o leite em fio, até engrossar.
Tempera-se com sal, pimenta e noz moscada.
Quando as batatas ficarem cozidas, passam-se com a varinha e adiciona-se o béchamel.
Rectificam-se os temperos e deita-se a restante margarina.
Deixa-se levantar fervura em lume brando.
Serve-se polvilhada com salsa picada.

Texto publicado no jornal Gazeta da Beira, autoria de Francisco de Almeida Dias

Francisco de Almeida Dias

 

Rubrica Portugal é mátria


A sabedoria de certas árvores antigas enche-me de veneração. Cada um de nós, creio, está ligado às árvores da sua terra, como cada homem se apercebe, um belo dia, de ser o seu próprio pai e o seu próprio avô e que esta é a única imortalidade possível.

A citação é do narrador e autor teatral italiano Ennio Flaiano (1910-1972) e evoca a imagem simbólica da árvore como a da própria imortalidade, na ligação à terra e à família, raiz que se renova a cada geração. Serve-me ela para introduzir duas avós, as de José Daniel Ferreira, autor do blogue “As receitas da avó Helena e da avó Eduarda”

Avó Eduarda

(https://asreceitasdaavohelena.blogspot.com/), que descobri por acaso há pouco mais de um ano, enquanto procurava, na selva informativa da internet, algumas notícias de todo diversas.

Quer fosse por me sentir ligado eu mesmo à memória das minhas avós, ou por reconhecer na arte culinária um veículo privilegiado dos afetos, adentrei-me nessa leitura agradabilíssima e sugestiva e rapidamente concluí que as duas senhoras em causa descendiam de ilustres famílias lafonenses, cruzadas mais do que uma vez entre si. Porque – como escreveu Natália Correia – Portugal é mátria, vamos hoje falar destas duas avós, mães duas vezes.

A Avó Helena chamava-se Maria Helena Rodrigues Teixeira, nasceu a 5 de janeiro de 1924 naquela grande casa onde ainda hoje existe a Farmácia Teixeira, em Santa Cruz da Trapa. Era a terceira filha de Joaquim e Aurora Teixeira e o seu avô paterno era Agostinho Fernandes Teixeira, o iniciador da citada farmácia. Casou em 1944 com Delfim Soares Ferreira Júnior, com quem veio viver para Lisboa, onde o marido era representante de grandes marcas de têxteis, com escritório na Rua da Madalena.

A história desta avó é a mesma de tantas senhoras da sua geração e de muitas gerações antes dela: a dedicação ao marido, ao filho e à família. Foi na vivência dessa autêntica (e religiosa) vocação que se desenvolveu o seu saber culinário, tão apreciado e recordado por todos quantos com ela privaram. Os regressos da capital a Santa Cruz da Trapa eram regulares, nas férias, em épocas festivas ou datas familiares e foram eles ocasião de recolha e laboratório de parte desse receituário com o que nutriu aqueles que amou, contribuindo para se manter viva, de forma indizivelmente afetuosa, nos seus corações.

Avó Helena

Aqui fica uma das receitas trapistas da Avó Helena:

Pudim de Laranja (receita da mãe, D. Aurora Rodrigues Teixeira)
Batem-se 10 ovos inteiros com 450 gr de açúcar e sumo e raspa de 1 laranja. Depois de bem batido leva-se a cozer em banho-maria, em fôrma barrada de açúcar queimado.

A Avó Helena era prima direita do Dr. Manuel Marques Teixeira, nascido também ele em Santa Cruz em 1908 e, no seu tempo, figura de importância nacional; era prima e veio a ser comadre, quando o filho José Manuel casou, em 1970, com Isabel Maria, a filha do antigo Deputado e Governador Civil de Viseu e de Portalegre. O Dr. Marques Teixeira era, portanto, o marido da outra avó homenageada – a Avó Eduarda.

Sobre ela escreveu, no mesmo blogue, José Daniel Ferreira: «A par da inteligência, a “liberdade” foi aquilo que sempre me fascinou na Avó. A liberdade de escolher, de se adaptar, de se atualizar sempre, aceitando sempre, com uma enorme dignidade, cada novo desafio da vida (…) Construiu solidamente a sua biografia pelas ações que praticou. Nunca parou. O futuro, e nunca o passado, foi a sua vida. Olhou o primeiro de frente e do passado queria apenas as histórias, lembranças e recordações do que viveu, mas nunca a ele ficou presa.»

Recordada pelo neto como alguém que “acompanhou, reflexiva e inteligentemente, a modernidade dos tempos”, teve como última das suas muitas leituras o romance Ernestina, de José Rentes de Carvalho – que lhe fora oferecido por ser esse o nome de uma cozinheira que vivera anos em sua casa, estimada como de família. Maria Eduarda de Athayde Sá e Mello Amaral, nascida a 2 de Abril de 1925 em Passos, não se podia dizer, como a Avó Helena, uma grande cozinheira, mas teve o mérito de colecionar e preservar para o futuro muitas receitas da sua casa materna (a bela Quinta de Passos de Carvalhais, comprada pelo pai à família Malafaia). Duas delas foram publicadas por Isabel Silvestre, no seu livro Doçuras, de 2006.

Aqui fica a receita do Bolo de Noz para os leitores da Gazeta se consolarem, agora que o tempo começa a ficar frio e convida a ficar em casa e a partilhar coisas doces, como as memórias das nossas avós…

Bolo de Noz da Quinta da Passos de Carvalhais
Com 250 gr. de açúcar, 250 gr. de nozes raladas, 7 ovos. Bate-se o açúcar com as gemas, juntam-se as nozes e as claras batidas em castelo. Vai ao forno em tabuleiro forrado de papel e bem untado. Pode rechear-se com meio litro de leite, 150 gr. de açúcar, 2 colheres de sopa da farinha Maizena, 175 gr. de manteiga. Com o leite, açúcar e a Maizena faz-se um creme e deixa-se arrefecer completamente; bate-se a manteiga e vai-se juntando o creme às colheres, batendo sempre. Se se preferir, pode rechear-se o bolo com ovos moles.

Texto originalmente publicado no jornal regional de São Pedro do Sul - GAZETA DA BEIRA

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

As Avós e o Blog na Gazeta da Beira


Pela pena de Francisco Almeida Dias sairá na Gazeta da Beira, já amanhã, um belo texto sobre as minhas Avós, inspiradoras do blog que alimento - termo extremamente adequado ao caso - faz já anos: 17 de Março de 2012, mais concretamente.
Obrigado Francisco por este gesto tão bonito e generoso. Espero que gostem. E obrigado a todos os que visitam este espaço.