terça-feira, 7 de abril de 2026

Haja saúdinha... pelo Dia Mundial da Saúde!

Neste Dia Mundial da Saúde, vimos relembrar que durante muito tempo, o "médico" e o "cozinheiro" foram, em certa medida, a mesma pessoa. O médico (ou cirurgião, como era mais comum) prescrevia alimentos, o cozinheiro preparava-os como remédio. O açúcar seria o elemento mais usado. Veja-se o que se passava, por exemplo, no Hospital Real de Todos os Santos, em Lisboa:

José Leone – Elementos para a história dos serviços clínicos nos Hospitais Civis de Lisboa:
Separata do Boletim Clínico dos Hospitais Civis de Lisboa, vol. 16, nº 3, ano de 1952

Não era incomum encontrar, nos livros de cozinha publicados em Portugal, receitas destinadas precisamente a doentes. E até mesmo em cadernos manuscritos das casas antigas, não podiam faltar recomendações e mezinhas para algumas enfermidades. 

E para mostrar que este fenómeno persistiu até ao século XX, deixo aqui alguns exemplos - de muitas dezenas que podia ter ido buscar se tivesse realizado uma busca mais exaustiva - dessas receitas especificamente indicadas para doentes.

Carlos Bento da Maia, Tratado Completo de Cozinha e de Copa, 1904. pág. 157

 Caldo de Frango Para Doente

Posto, que o caldo de frango seja menos empregado do que antigamente na alimentação dos doentes, e muitas vezes o substitua o leite, é muito util dizer como se deve preparar, embora em muitos casos seja bastante conveniente ouvir o médico a tal respeito.
Tome-se um frango que não seja gordo e, depois de convenientemente depenado, chamuscado, lavado em água fria e limpo dos intestinos (tripas, moela, fígado, papo, etc.) corte-se em pedaços e ponha-se ao lume com cerca de um litro de água, temperada com um pouco de sal e algumas folhas tenras de alface, previamente branqueadas.
Uma hora de cozedura deve bastar para preparar o caldo. Quando esteja feito, desengordure-se antes de dá-lo ao doente, porque, em muitos casos de doença, a gordura não convém para a alimentação.
Para tirar a gordura ao caldo, pode fazer-se uso da baldeadeira representada na figura, a qual tem ao meio da concha um funil cuja abertura superior fica abaixo do nível do bordo da concha, de modo que, metendo-a na panela, enchendo-a de caldo e deixando-a repousar por algum tempo mergulhada e direita, a gordura, que vem á superfície, escoa-se para a panela pelo funil, quando a baldeadeira se levanta.

Michaela Brites de Sá Carneiro, O Cosinheiro Popular dos Pobres e Ricos, 1908. p. 15

Arroz de Manteiga para Doente

Põe-se uma pouca de manteiga a derreter num tacho, deita-se-lhe a água suficiente, salsa e sal, e quando estiver a ferver bem, deita-se-lhe o arroz lavado em algumas águas. Quando estiver meio enxuto, mete-se no forno

Michaela Brites de Sá Carneiro, O Cosinheiro Popular dos Pobres e Ricos, 1908. p. 20

Bifes Para Doentes

Cortam-se bifes e depois de batidos, untam-se com uma pouca de manteiga e colocam-se num prato côvo coberto por outro, na boca de uma panela que esteja ao lume com água a ferver.
Pode servir-se dentro em pouco tempo. Também para doente se assam na grelha os bifes depois de bem batidos untando-os depois de assadas com uma pouca de manteiga boa.

Manual do Confeiteiro e Pasteleiro, 1904. p. 29

Geleia Contra a Tosse

Empregam-se : um frango bem depenado, 25 gramas de veado e uma quarta (125 gramas) de açúcar candi. Põe-se tudo a cozer em um litro de água, deixando-se ferver até ficar esta reduzida à terça parte ; côa-se depois e deitam-se no liquido 25 gramas de água de flor de laranja. Deixa-se gelar, e toma-se por cada vez uma colher das de sopa desta geleia, que é infalível contra a tosse.

Maria Manuel Gomes, A Que Sabe Sesimbra, 2025. p. 97

Gemada Com Cerveja Preta

2 gemas de ovos
2 colheres de sopa de açúcar
Bálsamo Peruviano

Numa tigela batem-se as gemas com o açúcar até obter uma mistura homogénea e de cor clara (cerca de 5 minutos). Depois de pronto, levava-se o preparado à farmácia para que se colocassem uns pingos de "cerveja preta" que não era mais que Bálsamo Peruviano, um bálsamo vindo do Peru, de cor escura e usado medicinalmente como anti-inflamatório e expectorante peitoral, sendo também utilizado em casos de asma, bronquite asmática, cistite, doença pulmonar, dor de cabeça, ferida externa, fraqueza, dor de garganta, tosse e sintomas das vias aéreas.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Rotchilde

Doces e Cosinhados, de Isalita, Centro Tipográfico Colonial, 1925. P. 209

Rotchilde

500 gr. de açúcar,  395 gr. de chocolate ralado, 60 gr. de farinha, 60 gr. de farinha de batata, 60 gr. de amêndoas,  16 gemas de ovos, 14 claras em neve. Desfaz-se o açúcar com as gemas, deita-se o chocolate ralado, depois as farinhas misturadas, as amêndoas pisadas, e no fim as claras em neve. Unta-se uma forma com manteiga e vai ao forno. Depois de frio, cobre-se com um creme feito com 8 gemas de ovos, 2 decilitros de leite, 6 colheres de chocolate ralado e 300 gr. de manteiga fresca.  Para fazer este creme desfaz-se o chocolate, juntam-se os ovos com o leite, a manteiga bate-se à parte, e depois mistura-se tudo a pouco e pouco. Deita-se por cima do bolo e guarnece-se com amêndoas picadas.

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