quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Tigelada de Leite e o Livro de Cozinha da Infanta D. Maria

 
Livro de Cozinha da Infanta D. Maria: Imprensa Nacional Casa da Moeda. 1986. pág. 71-72


Tigelada de Leite

Tomarão quatro ovos e açúcar e farinha, que será cinco colheres de prata, numa escudela, tudo batido; e tomarão uma tigelinha de barro e nela derreterão uma pouca de manteiga, que será tanta como uma noz em cada tigela. E depois que for derretida, deitarão este polme, que será temperado com sal, então mandá-lo-ão ao forno; e levem uma pouca de manteiga para deitar por cima depois que se coalhar. E também se pode fazer de leite cozido e de queijo fresco. E assim se faz a tigelada de arroz cozido com o leite. E nestas tigeladas de arroz, quem quiser lhe deita por cima gemas de ovos inteiras.


Chega a parecer incrível que só agora, 600 entradas depois, é que coloco alguma coisa deste maravilhoso livro de cozinha da Infanta D. Maria. Um livro obrigatório em qualquer biblioteca que tenha os temas da cozinha e da culinária (ou até mesmo medicina, já que apresenta algumas receitas para combater certas maleitas) como prioridade.

“O Livro de Cozinha da Infanta D. Maria de Portugal” está guardado na Biblioteca Nacional de Nápoles. Pertenceu à Infanta D. Maria de Portugal, neta do rei D. Manuel I de Portugal, nasceu em Lisboa em 1538, morreu em Parma com 39 anos, em 1577. Dona Maria de Portugal casou em Bruxelas, em 1565, o duque de Parma, Alessandro Farnese, tendo sido mãe de Edoardo, cardeal de Santo Eustáquio (1565-1626), Margherita, que se casou com o duque de Mantova (1567-1643), e de Ranuccio I Farnese, duque de Parma e de Piacenza, cuja descendência se ligou por casamento às importantes dinastias dos Medici, d'Este e Colonna.

“O Livro de Cozinha da Infanta D. Maria de Portugal” faz parte de um grupo de cinco tomos de origem farnesiana. Consta de setenta e quatro fólios, divididos em quatro cadernos com setenta e quatro receitas. Um códice que, apesar dos problemas paleográficos e cronológicos que apresenta, é deveras valioso, contribuindo não só para o vocabulário histórico da linguagem nacional, como também mostrando um lado importante da vida social que é a arte de cozinhar e bem comer, numa época da história nacional portuguesa de que muito pouco se conhece e cujo mais antigo documento de receitas culinárias publicado não é anterior a 1680, que é “A Arte de Cozinha” de Domingos Rodrigues.

“O Livro de Cozinha da Infanta D. Maria de Portugal” é composto de 67 receitas distribuídas em quatro cadernos e mais seis receitas avulsas que não tratam especificamente de culinária, mas de receitas diversas de uso doméstico. O primeiro caderno é o Caderno dos manjares de carne com 26 receitas (numeradas de 4 à 29); o segundo, Caderno dos manjares de ovos, com 4 receitas (numeradas de 30 à 33); em seguida encontra-se o Caderno dos manjares de leite com 7 receitas (numeradas de 34 à 40); e, finalmente, o Caderno das cousas de conserva com 24 receitas (numeradas de 41 à 64).